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Archive for the ‘Pra não esquecer’ Category

Feliz Natal

Eu teria 1000 motivos para não gostar do Natal, mas tenho 1 motivo forte o bastante para gostar: minha família! Tá certo, é uma família-ovinho, 5 pessoas (que fossem 2 ou 3), mas é a minha família, que nos bons e maus momentos estão sempre ali escutando, apoiando, discutindo, xingando, resmungando, enfim, como toda família. Isso pra mim já me basta!  E espero que Deus me proporcione muitos e muitos natais com minha família-ovinho reunida.

E a todos que aqui passarem, não importa o tamanho de sua família, curta cada momento com ela – divergências sempre existirão, não tem jeito. Repensem atitudes e decisões. Não dá pra recuperar tempo perdido, mas ainda há tempo de não perder mais tempo!

A todos os amigos e visitantes do Tricotando, um FELIZ NATAL e um 2008 cheio de luz!

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Alguns dos amigos que aqui vêm sabem que trabalho com pacientes psiquiátricos. Tarefa árdua, mas muito prazerosa. Optei por expor aqui uma série falando um pouco sobre meus pacientes, e inauguro com um dos casos que mais me sensibiliza na minha profissão de enfermeira. É o caso do Adão (ficou longo, mas a história é bonita, vale a pena ler, não sejam preguiçosos! rsrsrs) – ele, até ano passado, era um homem barbudo, com o cabelo enorme, obeso mórbido, que andava nu, e que era pretim-retinto pelo pó de asfalto, pois vivia na rua. Não permitia que ninguém se aproximasse e sempre dava as costas a quem tentava puxar uma conversa. Andava com um cobertor, que usava durante a noite, cuidadosamente enrolado por cima da cabeça (como se fosse uma trouxa).

Foram feitas várias tentativas de abordagem de Adão, mas todas sem sucesso. Ele, além de ser morador de rua, também é portador de um transtorno mental – esquizofrenia.

Certo dia, o Serviço de Abordagem de População de Rua da Prefeitura iniciou nova abordagem a Adão e conseguiu trazê-lo ao CERSAM. Me lembro que quando chegou, ele nem me deu confiança – fez comigo exatamente como fazia com as pessoas que tentavam abordá-lo na rua – me deu as costas e me deixou com cara de tacho! Optamos por mantê-lo no CERSAM durante o dia e a noite também, até estabilizar o quadro. Adão falava sozinho; delirava, recusava-se em dormir na cama; à noite permanecia dormindo sentado num dos bancos da recepção, ou no chão, e urinava em qualquer lugar após fecharmos a porta; estava hipertenso, com risco de sofrer um AVC ou infarto. Com muito custo, após 15 dias, conseguimos convencê-lo de cortar o cabelo (ou melhor, raspar, pois os cabelos eram puros nós e sujeira) e fazer a barba. Não sentava-se no refeitório; e sempre comia usando as mãos – recusava talher. Não era hostil, mas isolava-se. Respeitei suas vontades e seu espaço no início. Porém eu precisava me aproximar para conseguir tratá-lo, mas como fazer isso?

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Desde os primeiros dias percebi que Adão sempre catava bitucas de cigarro pelo chão. Juntava todas em um maço velho e amassado; depois ele pedia uma folha de papel e juntava todo o fumo restante dessas bitucas, formando um cigarro. Como sou fumante, olhei pro meu maço e pensei: “É com isso aqui que vou me aproximar”. Ofereci-lhe um cigarro; ele aceitou e agradeceu, mas ainda manteve-se distante. Em outros dias eu lhe arrumava 2 ou 3 cigarros; até que um dia ofereci-lhe um maço – ele já me olhou diferente, agradeceu novamente e até esboçou um sorriso. Aos poucos puxo uma conversa daqui, outra conversa dali, mas ele sempre colocando limites em suas respostas.

Vinte dias se passaram e Adão já não suportava mais ficar dia e noite no CERSAM. E quando o pessoal que o trouxe vieram visitá-lo, ele deu um ultimato: “Vocês hoje só saem daqui se me levarem pro lugar de onde vocês me buscaram; “quero dormir olhando pras estrelas, como sempre fiz”. Momento delicado. Ele estava irredutível – queria ir embora e ponto final. Combinei com ele o seguinte: que ele poderia voltar para a rua, desde que na manhã seguinte aceitasse ser buscado pela nossa kombi – passaria os dias conosco e as noites na rua dormindo “olhando para as estrelas”. Ele concordou, mas no dia seguinte não cumpriu o trato. Pensei: perdemos o caso; mas mesmo assim insisti na busca diária no local onde ele foi deixado, na esperança que aparecesse. E qual não foi a minha surpresa, dois dias depois, Adão cumpriu sua parte; estava lá à espera da Kombi. Fiquei numa alegria sem fim. No início, ele mesmo definiu sua freqüência no CERSAM (informalmente): duas vezes na semana; depois passou a vir três e assim por diante. Numa de nossas conversas perguntou meu nome (pela terceira vez), e com aquele vozeirão de Tim Maia, disse: “Dra. Jacqueline, você é legal! Você é maneira! Eu cri na senhora e não me arrependi! A Sra. disse que eu poderia voltar a noite pra dormir olhando pras estrelas, se eu viesse ficar o dia aqui, e a senhora cumpriu o combinado. A Sra. é maneira! Agora eu não perco mais isso aqui de vista”. Me senti tomada por uma satisfação enorme; indescritível – o vínculo ao CERSAM estava feito!

À medida que freqüentava o CERSAM e aceitava a medicação, Adão estabilizava o quadro e revelava um pouco mais de sua história, mas não me dizia seu nome verdadeiro. Ele nasceu no Espírito Santo, depois foi morar próximo à Governador Valadares; entende quase tudo de plantação de feijão e arroz – veio para BH com a família (irmãos e pais), mas não sabe onde eles estão. Adão fala muito bem, apesar de sua longa trajetória na rua, e de usar algumas gírias, conjuga os tempos verbais muito bem. Sabe ler e escrever. É educado e gentil. Não se envolve em confusões dentro do CERSAM, pelo contrário – evita-as a todo custo. Diz que tem uma irmã que também é moradora de rua, mas não sabe onde ela está, e que tem um irmão que foi “mais estudado e que venceu na vida; ele tem uma casa”; conta que o irmão mora naquela região por onde ele anda. Mas que esse irmão, apesar de já tê-lo visto na rua, nunca se aproximou dele. Adão se lembra do endereço. Fomos com ele até a rua onde indicou, mas ele não reconheceu a casa, e no número que ele fornece, não existe o irmão dele.

Meses mais tarde, Adão me fala seu nome todo: “Me chamo B.T.S, nasci no dia tal, mês tal e ano tal e na cidade tal; estudei na Escola X. O nome da minha mãe é fulana de tal. Fomos conferir junto ao Instituto de Identificação pelas impressões digitais – e é verdade; ainda descobrimos mais – Adão já havia cumprido pena por homicídio. Procuramos informações na cidade onde ocorreu o fato; os moradores mais antigos relataram para a assistente social que se lembravam de um rapaz, com o nome dele, que teve a primeira crise na juventude, e que nessa crise acabou assassinando um homem; e por causa disso, e por pressão dos moradores locais, ele e os pais se mudaram para BH em busca de tratamento. E ele me contou com detalhes como tudo aconteceu: diz que usou uma barra de ferro, mas que foi para se proteger, pois o homem (deu o nome) o provocou muito, ofendeu e o agrediu. Ele disse que não queria matar, mas que o pior acabou acontecendo. Conta que cumpriu pena; ele diz: “fui amarrado, com as mãos pra trás! Fiquei na gaiola; preso na gaiola – 9 meses, mas já cumpri minha pena”; e repete várias vezes: “fiquei amarrado, com as mãos pra trás – fiquei preso na gaiola feito passarinho”.

Ainda há lacunas de sua história que não conseguimos preencher: o que aconteceu com a família de B.T.S? Onde estarão? Como ele foi parar na rua? – essas e outras perguntas estão ainda sem respostas. Foi providenciada foto e carteira de identidade para B.T.S. , e hoje Adão só é Adão para os transeuntes – mas perguntei a ele: “se você é B.T.S, por que então você atende quando lhe chamam de Adão? Ele responde: “Porque esse é o nome que me dão na rua!” (já que tinha o hábito de andar nu pelo viaduto da Lagoinha e imediações) “e pra não ser mal educado, eu atendo quando me chamam assim!” Hoje ele quase não fala sozinho, não observamos os delírios de antes, usa o banheiro como todos (e adora disparar a descarga, rsrsrs), só anda vestido com calça e blusa, de barba feita uma vez na semana, cabelo aparado mensalmente, de banho tomado (mas quando recusa, não há quem o convença), de vez enquando, pede para cortarmos suas unhas, sempre come usando talher e senta-se à mesa, mas ainda gosta de dormir na rua, olhando para as estrelas, e ficar com seu cobertor enrolado na cabeça.

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* Hoje faz um mês que aconteceu a tragédia do vôo da TAM – das 199 vítimas, 194 foram identificados – ainda faltam 5.
* “Desapareceram” 23 minutos de gravação de voz do vôo.

Ordem e progresso – são esses os dizeres que vemos estampados em nossa bandeira, certo? Significam: ordem por base e progresso por fim. Bonita a definição, mas para quem? Vejamos o que o nosso país tem de ordem e progresso (vou citar aqui algumas poucas coisas):

  • Caos na Saúde: enquanto vivemos a nossa realidade de falta de atendimento médico decente nas unidades de saúde (devido muitos fatores, mas também à falta de medicamentos nos mesmos) nosso pré-sidente solidário da silva autoriza o envio de medicamentos para as vítimas do terremoto no Peru (ele também fez isso na ocasião do tsunami). Brasil é solidário pra caramba!

  • Caos na Educação: professores mal remunerados intimidados por alunos armados dentro das salas de aula, escolas depredadas e saqueadas, crianças que não sabem ler, e que muito mal e porcamente assinam o próprio nome, e que são aprovadas todos os anos. Se depender da atual educação, muito em breve farão alterações nos dizeres da bandeira, ao invés de progresso, leremos pogreço!

  • Caos no Sistema Viário: estradas mal conservadas e mal sinalizadas, algumas delas parecem obra de ET, pois a única serventia foi desviar dinheiro público, já que unem o nada ao lugar nenhum, e outras que promovem a morte de milhares de pessoas por ano, e ainda tem o risco de ser assaltado, seqüestrado e até mesmo assassinado por bandidos armados com revólveres ou fuzis, ou mesmo com um carro ou caminhão (sim, existem assassinos em potencial atrás de um volante). E não duvido que já tenham dito: se querem viajar, que usem drogas!

  • Caos na Segurança: onde o réu primário responde o processo em liberdade, mesmo que ele seja confesso no estupro e assassinato; onde a polícia prende, mas justiça solta quando eles cumprem o absurdo de 1/3 da pena; onde bandidos podem sair no natal para ver papai noel e na páscoa para ver o coelhinho botar ovos! Onde marginais, de dentro do presídio, intimidam as pessoas aqui fora, e conseguem extorquir dinheiro; onde dentro dos presídios alguns têm o luxo de fazer churrasco nos fins de semana, têm DVD, Tvs modernas, celulares e outras coisitas mais. Que isso, gente! Isso são direitos humanos!

  • Caos no Sistema Aéreo: onde dois aviões se chocam em pleno vôo, porque nossa tecnologia de radares (ou coisa parecida) está ultrapassada; onde benefícios são concedidos às empresas aéreas, de modo que o que deveria ser fiscalizado, retirado ou substituído não acontece – tá tudo liberado. Onde uma pista de aeroporto não oferece segurança a quem voa, seja por ela ser pequena, seja por não ter área de escape, por não ter o tal do grooving, pois o mais importante é colocar mármore nas salas de embarque e desembarque para que as pessoas passem horas e horas a admirá-los, até mesmo dias, pois não conseguem embarcar, e têm que se sujeitar a deitar no chão ou nas cadeiras dos aeroportos para aguardar, caso contrário, perderão seus lugares nos aviões. Quantas vezes ele precisará repetir, gente: ao voar, façam como eu, coloquem sua vida nas mãos de Deus! Ô povo teimoso, sô!

  • Caos na política: onde todos os dias pipocam escândalos e mais escândalos de corrupção e desvios de dinheiro, obras super-faturadas, malas, cuecas, valeriodutos, trocentas CPI’s, todos absolvidos, e trocentas pizzas que nos empurram goela abaixo. Existe alguma pizzaria que fature mais do que a do planalto?

  • Caos na consciência: onde a maioria aplaude e se contenta com bolsa-família, bolsa-escola, e bolsa não sei mais o quê, mas não como um auxílio, e sim como meio de sobrevivência, ao invés de cobrar trabalho e salário dígnos; onde todos assistem a uma sessão deboche de relaxa e goza e depois top-top-top, mas antes passando por uma dança comemorativa ao mensalão; e o lance é mesmo comemorar, afinal o povo tem o carnaval, as micaretas, tivemos o PAN, o Cristo Redentor como uma das 7 maravilhas, os campeonatos estaduais e brasileiro de futebol, o bolsa-família, o bolsa-escola…Êita paisinho bom esse, meu Deus!

  • NÃO!!!! Eu não quero mais meu país assim!!!! Eu quero respeito, eu quero ordem, eu quero progresso, quero ter orgulho de ser brasileira e gritar aqui nesse blog que as coisas no meu país funcionam!!! Eu não quero que meu país seja composto de Marcos Valérios, de Josés Genuínos e Dirceus, de Malufs, de Garotinhos, de Dilmas Roussens, de Suplicys e de miseráveis que se contentam e conformam com os bolsas-não sei o quê, e um governo que se vangloria por mantê-los assim, como eternos “companheiros” excluídos de qualquer coisa.

    Quero que culpados sejam punidos. Quero meu país com oportunidades, justiça e assistência a todos; não quero ostentar o nariz de palhaço, e quero que a única pizza que eu coma, seja aquela que eu pedir na pizzaria e no sabor que me agradar. Será que é tão difícil isso? Se não mudarmos, se não cobrarmos dos nossos políticos, a definição do que está escrito em nossa bandeira será: Ordem para ser colocada embaixo da base e para por fim ao Progresso.

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Talvez porque eu nunca tenha presenciado de tão perto as guerras;

Talvez porque as cenas da fome e da miséria absoluta sempre estiveram em um mesmo mundo, em um mesmo país que o meu, mas com uma realidade muito diferente da minha;

Talvez porque as catástrofes da natureza pré-anunciadas pouparam meu país (me refiro aqui ao Kathrina, tsunamis e tantos outros);

Talvez porque eu nunca tenha sentido tão perto de mim uma tragédia pré-anunciada, e que só aconteceu por omissão, negligência e ganância do governo.

Talvez porque isso tenha acontecido no meu país e com um meio de transporte que eu julgava ser seguro, e numa rota que eu já fiz com a minha família;

Talvez porque dessa vez eu tenha presenciado pela TV os assessores do nosso presidente comemorando, com gestos vulgares e chulos, uma suposta isenção de culpa por parte do governo em um mesmo momento em que centenas de familiares choravam a perda estúpida dos seus entes queridos;

Talvez porque a dor em imagens, em 10 meses entre o acidente da GOL e da TAM, foram somadas e multiplicadas dentro de mim. Me tocaram fundo no coração, como eu nunca havia sentido antes.

Talvez porque agora eu tenha certeza de que, para o governo, 200, 300, 1000 vidas que sejam, não são e nem serão nada diante do total de quase 189 milhões de habitantes. E porque 200, 300, 1000 vidas que sejam, foram, são e serão, para sempre, importantes, inesquecíveis e insubstituíveis para os seus que aqui ficaram.

E para que todos se lembrem, e para que eu nunca me esqueça, coloco a cena da dor; a dor em imagens; imagens no país chamado Brasil; a dor de um país chamado Brasil.

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Sei que estou batendo na mesma tecla há 16 dias com os 7 últimos posts referentes ao acidente da TAM, mas não há como isentar o governo e os órgãos responsáveis pelo setor aéreo do nosso país dos desmandos, omissão, negligência e ganância neste acidente. E para os mais desavisados, e que não me conhecem, não, eu não perdi ninguém neste acidente pré-anunciado; eu não conhecia ninguém que ali estava, mas isso não diminui a minha repugnância, revolta e indignação em relação ao governo e ao modo como nos tratam e como estão tratando os familiares das vítimas, tanto desse acidente, quanto do da GOL.

Por mais que eles venham com seus “mantras” de que os controladores de vôo, piloto, a aeronave, o reverso da turbina, spoilers (nem sei o que é isso), transponders da vida não funcionaram, que não estavam adequados, que não estavam preparados e blá, blá, blá, mais ainda me convenço de que a responsabilidade é do governo, afinal, quem fiscaliza aeronaves, aeroportos e empresas aéreas? Quem libera ou impede que um aeroporto funcione em segurança? Quem aprova ou reprova verbas e condutas adotadas pelas empresas aéreas e para obras nos aeroportos? Quem é o responsável por adquirir novos equipamentos, com nova tecnologia para os controladores de vôo? Quem treina, capacita, contrata, fiscaliza a jornada de trabalho de controladores de vôo e pilotos? Quem? Será que é o Zé ali do lavajato da esquina ou os caras lá do Planalto?

Quem não leu os últimos 7 posts… fique à vontade! Nunca é tarde para começar a questionar!

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